Vorcaro afirma que pagou R$ 30 milhões por fora a filme sobre Lula para acessar fundos de pensão
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirma que bancou por fora um documentário sobre Lula para abrir caminho até fundos de pensão de estatais. A revista VEJA teve acesso a um áudio e a documentos em que ele relata o esquema. Vorcaro está preso em Brasília desde março, sob acusação de comandar uma das maiores fraudes bancárias do país.
De acordo com o relato, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto exigiu cerca de R$ 30 milhões em espécie. O dinheiro iria ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto, para custear um documentário no exterior. Além disso, Vorcaro diz que pagou um valor não revelado diretamente ao instituto.
Em um áudio, o banqueiro compara o caso ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Na prática, ele separa os dois casos. Para Vorcaro, o filme de Lula foi pago “por fora” e foi “errado”, enquanto o de Flávio Bolsonaro teria sido um patrocínio normal.
Por outro lado, o presidente Lula vinha usando o escândalo do Master para atacar adversários. Candidato à reeleição, ele chamou Vorcaro de “mágico” e defendeu uma investigação “doa a quem doer”. Até agora, o petista ficava fora das acusações ligadas ao banqueiro.
Propina de 10% e a porta dos fundos de pensão
Vorcaro registrou os fatos em um anexo entregue à Procuradoria-Geral da República em junho, quando a PGR descartou a segunda proposta de delação. Ainda segundo o banqueiro, seu então sócio Augusto Lima articulou a aproximação com o PT. Lima contou com o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner, para marcar o primeiro encontro com Vaccari.
Diante disso, Vorcaro diz que Vaccari cobrou ainda uma taxa de 10% sobre tudo o que o Master captasse nos fundos de Caixa, Banco do Brasil, Petrobras e Correios. Com isso, o petismo receberia R$ 1 bilhão, e o banqueiro lucraria R$ 9 bilhões. Os fundos citados são Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset.
A PGR não levou o caso adiante. Segundo o órgão, não havia provas, já que os pagamentos teriam ocorrido em dinheiro vivo. No entanto, a defesa de Vorcaro respondeu que ele tem mensagens de WhatsApp, registros de quem retirou o dinheiro e as rotas usadas nas entregas.
Planalto, operador e a lista exaustiva
O banqueiro também cita o então ministro Alexandre Padilha e o então secretário-executivo Olavo Noleto. Para Vorcaro, um operador petista identificado como “Júlio” tinha livre acesso ao gabinete de Padilha. Mensagens achadas pela Polícia Federal no celular do banqueiro reforçam essa parte do relato.
De acordo com Vorcaro, Júlio, Olavo e um primo de Olavo foram à casa dele e impuseram propina de 10% para entrar em Previ, Petros e Postalis. Na sequência, o banqueiro foi ao Postalis e conseguiu reuniões com Petros e Previ. Ele diz que Padilha ajudou por meio de Noleto.
Em 29 de abril de 2024, o Master entrou na chamada “lista exaustiva”, que reúne as instituições autorizadas a receber recursos dos fundos estatais. “Entramos na lista exaustiva. Resolvido”, escreveu Augusto Lima. Por conseguinte, Júlio cobrou R$ 500 mil no mesmo dia, como adiantamento da propina, e Vorcaro pagou.
Contudo, o plano esfriou em julho de 2024. A jornalista Malu Gaspar noticiou, em O Globo, que a Caixa afastou dois gerentes que haviam criticado uma operação de R$ 500 milhões do Master. Por isso, segundo Vorcaro, o grupo de Padilha e os dirigentes dos fundos seguraram os investimentos.
Apesar do recuo, Vorcaro diz que captou dinheiro em fundos municipais com a mesma regra de 10%, o que rendeu ao menos R$ 6 milhões aos operadores. Por fim, as mensagens sugerem que o gabinete de Padilha tentou marcar um encontro entre o banqueiro e Lula, em outubro de 2024. Nenhuma das pessoas citadas aparece, no material, com resposta sobre as acusações.



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