Caso Master-BRB: Mensagens da PF Revelam Articulação de Daniel Vorcaro com o Planalto
Mensagens e registros de áudio apreendidos pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro expõem os bastidores de uma longa articulação política para tentar evitar o colapso financeiro do Banco Master. De acordo com informações reveladas pela reportagem da VEJA, o material obtido pelas autoridades detalha conversas entre Vorcaro e o advogado Walfrido Warde, que atuava como ponte direta com o governo federal e o Palácio do Planalto entre 2023 e 2025.
Os arquivos recuperados indicam que o banqueiro buscava consolidar apoio político de alto escalão para chancelar a operação de venda de 58% do capital do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). A transação, anunciada no final de março de 2025, dependia fundamentalmente da aprovação técnica e regulatória do Banco Central — autarquia sob a presidência de Gabriel Galípolo —, o que intensificou as movimentações para obter suporte no Executivo.
Pressão política e o alerta de Warde sobre repercussão midiática
Em um áudio enviado em 30 de março de 2025, apenas dois dias após a formalização do acordo com o BRB, o advogado Walfrido Warde advertiu Vorcaro a respeito de matérias jornalísticas veiculadas pela imprensa. No registro, Warde sinalizou que as publicações tinham como objetivo minar a sustentação política da operação junto à base governista.
Warde afirmou expressamente ao cliente que havia uma investida para romper a blindagem construída nos bastidores: “A Globo tá querendo, basicamente, quebrar o teu apoio interno dentro do PT (…) Eles querem tirar o apoio do presidente. Já entenderam que o teu apoio vem do presidente”. Para ilustrar sua análise de conjuntura política, o advogado enviou a notícia sobre a consultoria prestada pelo ex-ministro Guido Mantega ao Master e a articulação de audiências em Brasília.
Citações diretas ao presidente e acesso ao Palácio do Planalto
Os registros colhidos pela investigação revelam que o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mencionado ao menos 20 vezes em diálogos trocados entre abril de 2023 e julho de 2025. Ao longo desse período, o advogado relatava proximidade com assessores centrais do Planalto, com destaque para Marco Aurélio Santana, o Marcola, chefe de gabinete da Presidência da República.
As conversas demonstram uma rotina de negociações para agendamento de encontros reservados fora da agenda oficial, além de conversas por telefone para tratar de temas sensíveis que os interlocutores evitavam detalhar por texto. Entre idas a Brasília e uso de aeronaves privadas, Warde chegou a relatar a realização de uma audiência direta em 4 de dezembro de 2024, após meses de tratativas para viabilizar o encontro com o chefe do Executivo.
A tentativa de salvamento com o BRB e o desfecho com a liquidação
À medida que os problemas financeiros da instituição se agravavam no primeiro semestre de 2025, a tensão entre os interlocutores aumentou, resultando em cobranças por posicionamentos mais firmes do governo. Em julho daquele ano, diante de entraves para a conclusão do plano de resgate, Vorcaro chegou a pedir o envio de avisos incisivos à cúpula do governo, enquanto Warde afirmava em grupos de mensagens que a situação exigiria medidas extremas.
O envolvimento do BRB na tentativa de socorro bancário demandou questionamentos diretos sobre a chancela federal ao negócio. Em agosto de 2025, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, indagou expressamente a Vorcaro se havia o aval do presidente Lula para a operação; como resposta estratégica, o banqueiro orientou a interlocução por intermédio de lideranças partidárias para não expor diretamente a figura presidencial.
Apesar das articulações políticas e das investidas para viabilizar a aquisição pelo BRB, o plano não prosperou nos órgãos de controle. Sem a sustentação regulatória necessária para validar a operação de compra, o Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central cerca de três meses após o auge das negociações.



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